o ritrovo é o meu bar.
roubado, mas é meu.
certo, vamos admitir. o ritrovo é um boteco roubado, mas com muito orgulho. foi descoberto pela ala feminina da turma, e apresentado inocentemente. e, assim mesmo, inocentemente, foi tomado pela praga dos estudantes de medicina com um quê de alma boêmia.
o ritrovo é o nosso barzinho. não dá pra dizer boteco, porque a mesinha é de madeira, e não de lata. não é o mesmo prazer.
mas, ainda assim, eu, hoje, publicamente, dei um beijo na tal mesinha de madeira.
o nosso barzinho, eu me refiro, é barzinho da gurizada. meu, do dincao, do lardi, do guma. da atm 2008.
e, claro, do marcelo. senão, não teria a mesma graça.
hoje, pensando bem, posso dizer que abandonei quase que definitivamente a vida noturna, e me entreguei à vida boêmia. com orgulho, muito orgulho. orgulho de, sexta e sábado a noite, nem ter mais que pensar ‘onde vamos?’. basta um ‘a que horas?’
é um bar pequeno, frequentado, basicamente, sempre pelas mesmas pessoas. como um barzinho pra chamar de seu deve ser, entende?
é barzinho de chegar gritando, chamando o dono pelo nome.
de, apesar de tar já de portas fechadas, ter a liberdade de abrir, plena madrugada, e ser recebido com um sorriso no rosto e uma polar geladinha. e, na hora de ir embora, ajudar a fechar a porta emperrada.
de cantar em coro, bar inteiro, as mesmas músicas, toda semana. mas cantar, cantar de feliz. rindo, fotografando, se abraçando. desses. e ver a alegria na cara do dono, orquestrando o coral, do alto de seu trono, magnânimo. mestre marcelo, com um sorriso de fazer covinhas, de ver a gurizada feliz.
de conhecer desconhecidos. chegar cumprimentando gente que nunca se trocou uma palavra na vida. ‘mas tá ali toda semana.. vou cumprimentar, pelo menos, né?’
o ritrovo me apresentou the doors, ponto. a gurizada insistia, a maria clara insistia, foi o marcelo que me catequizou. tanto que, hoje em dia, eu não consigo escutar sem associar com o clima boêmio do meu barzinho.
o ritrovo tem a minha mesinha. a minha mesinha, que, hoje, eu beijei. a minha cadeirinha, que, um dia, quando eu for memorável, vai ter uma plaquinha com o meu nome. e, quem sentar ali, vai se sentir obrigado a puxar um brinde a cada meia hora, a acender o isqueiro a cada vez que tocar ‘amigo punk’, a cantar chorando de alegria aquelas músicas de bar, a incentivar polêmica às 5 da manhã. se for plantonista, a ir de virada pra plantões. se for estudante, a ir de virada pra intensivões. se for vivo, a chorar as mágoas passadas e amparar os ombros da mesa inteira.
sabe?
juro, juro. procurei o meu barzinho a vida inteira. e, eis que, por acaso, ele me achou.
o ‘professor’ marcelo já muito me ensinou sobre essa vida. e eu, modestamente, dos meus míseros vinte e quatro anos, tento passar alguma mínima vivência, em retribuição.
professor marcelo, pode ter certeza. 23h, toda sexta ou sábado, pode começar a aula. a patota tá presente.
..
eu ia embora uma e meia, jurei pro lardi.
seis e cinco da manhã, o marcelo teve que pedir pra gente ir embora porque o filho dele ia acordar ele às oito, como sempre.
nove litros de cerveja depois, sem o famoso cachorro-quente da saída – porque o lardi, hoje, renegou – , entrávamos no táxi de volta pra casa. orgulhosos, bem orgulhosos. um recorde pessoal.
saudade de voltar pra casa de manhã diretamente de um boteco, sabe?
bar, digo. bar. desculpa, marcelo. bar.
mas deixa eu chamar de boteco, porque boteco é pros íntimos.
que eu até perdôo as mesinhas de madeira.
l: the doors – touch me.
(ténks, marcelão!)