Arquivo para Março, 2009

yes, we can!

Março 16, 2009

e a tradição dos filmes de domingo à noite continua.

busca implacável, o de hoje. com o liam neeson. olhando, pela capa, não dava nada. ‘o novo bourne’, prometiam. grande coisa, nunca gostei do bourne mesmo.

e, pra variar, me surpreendi. bom, muito bom. filme de ação dos que dá gosto de ver. e, ao contrário do tal bourne, é um herói com personalidade. a gente simpatiza com o mocinho já de cara.

o filme é repleto de lições de moral. ouça seu pai. não fale com estranhos. não minta. não seja fácil. se valorize, preserve sua virgindade. ela lhe valoriza MUITO.

e, no papel de filhoca, uma atriz bem bonitinha que me lembrou de um rosto do passado. daquelas de bater uma mini-deprê.

eu, que já ando meio pra baixo com as coisas de ultimamente, tava sentindo um início de sentimentalismo bocó se instalando.

(mas, logo em semana de st. patrick’s? aí não dá!)

de repente, tocou o telefone. era o seu pedro, um motorista lá de pelotas que quebra uns galhos pra gente em chegadas e partidas de viagem. veio pegar minha mãe no aeroporto, e já aproveitou a vinda de carro pra me trazer umas sacolas que tavam lá por casa e eu não apareci mais pra pegar.

e, na hora certa, chegaram as oferendas!

pra quem não sabe, todo presente de viagem eu considero uma oferenda. como meus pais tão volta e meia pipocando em congressos e afins, a cota de oferendas anda bruta. e, como não vou pra casa já faz um tempinho, as oferendas do último congresso da minha mãe tavam acumuladas lá em casa, me esperando. maomé não foi à montanha, a montanha veio a maomé.

entre barbeadores elétricos e mimos da blue note, eis que apareceu o motivo do post.

o perfume.

dentro da necessaire que ’misteriosamente’ desapareceu de dentro da mala, graças ao bom amigo guincheiro, no acidente de dezembro, eu levava um perfume. O perfume.

que, ironicamente, eu, que gosto tanto, tava lembrando dele pelo nome errado.

semanas atrás, meu pai teve em jaguarão e eu tinha pedido pra ele o tal perfume, pelo nome que lembrava. chegou aqui, abri, experimentei, e era bom. mas não era ele. o frasco era diferente, o aroma era diferente. mas o nome tava certinho. encafifamos com a história, mas pensei ‘poxa, será que esqueci o cheiro do perfume?’

não, meu amigo.

a vida, cheia de coincidências, como sempre. andam acontecendo demais ultimamente, mas isso é assunto pra outro post. enfim. o tal perfume não chegou na terça, trazido pelo meu pai, em mãos; chegou hoje, trazido pelo seu pedro, em sacolas. sem nem eu ter que pedir por ele.

mamãe experimentou no free shop, e comprou, por acaso, porque achou gostoso.

GRANDE mamãe!

vi a caixinha, e já me animei todo. ’será?’, pensei. e era. tava lá ele, com sua cor de whisky. seu frasquinho elegante, sólido, espesso, imponente. borrifei.

o meu sorriso foi memorável, de tão espontâneo.

quem tá lendo, deve pensar ‘que besteira, por um perfume!’. mas não, meu amigo. não era um perfume. era uma lembrança.

olhando no espelho, comecei a vibrar sozinho. cheirava, olhava pro meu reflexo, rindo sozinho. olhos arregalados. cheirava de novo, borrifava de novo. sorria, ria, histericamente. que que tinha naquele perfume? não conseguia lembrar por que ele tava me deixando tão feliz. sabia que ele tava me lembrando de alguma coisa, que não conseguia situar. aquela memória que a gente tem pra perfumes e situações, que acho que já comentei, tava disparando aflitamente, mas nada de lembrar qual era a situação. só sei que me fazia vibrar por dentro. como se tudo fosse dar certo.

minutos mais tarde, deitado na cama, tava vendo tv, distraído, tentando lembrar que cheiro era aquele. não me saia da cabeça. cheirava o pulso a cada 10 segundos, abria um sorriso, e voltava a pensar. e nada.

and, then, it hit me.

não era uma lembrança necessariamente feliz. era uma época. e, convenhamos, nem tão feliz assim. era cheiro de plantão, bloco cirúrgico, torrada de queijo e nescau batido às 6 da manhã.

era o perfume que eu usei no mês de estágio do conceição.

e, aí sim, a minha cabeça deu um nó.

tá, o conceição foi legal. foi divertido, foi cansativo. mas não foi um tempo convencionalmente feliz, tão feliz que justificasse essa injeção de ânimo toda. foi um tempo..

exatamente.

foi um tempo diferente.

a associação que eu fiz com o tal perfume foi de um território desconhecido, cheio de possibilidades. era época pré-provas de residência, de embrulhar estômago. era um ambiente desconhecido, gente diferente, um hospital novinho pra se explorar. era a primeira surpresa de verdade que eu tive em seis anos de medicina, fora de ‘casa’. era um estágio não em outro hospital, mas em outro dia-a-dia. era sair da rotina de thiago, e assumir a identidade de ‘doutorando de fora’, um estágio da vida, não da faculdade.

e, nessas coincidências que eu tanto falo, na tv, passando diários de uma babá, cena final. scarlett johansson narrando.  ‘é um dito comum na antropologia que, para conhecer a comunidade na qual se está inserido, realmente conhecer, é preciso sair fora dela.’

o meu perfume de possibilidades voltou.
justamente num tempo em que eu realmente preciso me conhecer melhor.

levantei da cama, todo bobo, com aquele sorrisinho ainda murchando. pensando nisso tudo. cheio de esperanças. voltei pras oferendas. faltava uma sacola.

não deu nem tempo de o sorriso murchar.

com tanta incerteza pela frente, a garantia do sucesso tava na sacola final.

afinal, nada pode dar errado quando se tem calças novas.

 

l:  george michael – freedom ‘90.

(é, eu devia ter guardado a the times, they are a-changin’ pra esse post.)

(pensando bem, não; freedom ‘90 tem mais cara de final feliz, mesmo :))

the times, they are a-changin’.

Março 9, 2009

desde pequeno, eu sempre gostei de histórias.

dos 4 aos 13, a minha paixão eram as histórias em quadrinhos. as pilhas de gibi que eu tinha no quarto eram, de fato, respeitáveis; vício sempre suprido e estimulado pelos meus pais, que me compravam pacotes e pacotes de revistinhas por semana.

cresci um pouco, e comecei a precisar de espaço nas estantes do quarto. então, troquei de vício. e parti pro cinema.

em algum texto, já devo ter comentado que nas madrugadas de domingo pra segunda é que me sinto mais criativo. acabo dormindo o dia inteiro, cansado do fim de semana, e, lá pelas 22h, 23h, acordo totalmente sem sono. até tento voltar a dormir, mas não tem jeito. alguma coisa chama.

mas, rebelde preguiçoso que sou, sempre acabo me conformando com um filme.

e, coincidentemente, sempre são os que acabam me dando pano pra manga pra escrever ou contar uma história.

o de hoje, eu sempre tive bastante preconceito. assisti o tal ‘o som do coração’, que meu pai tanto insistia pra eu ver e me emprestou. já tinha ouvido boas recomendações, mas.. sabe? não parecia um filme apetitoso.

pois então. tomei coragem, e comecei a ver. e, pra minha surpresa, é bem bom. daqueles bonitos, perigosos pra um domingo à noite.

o filme trata sobre um menininho que tem um dom musical. um prodígio. e, entre musiquinhas e reviravoltas, conta uma história bacanosa, do tipo que vale a pena ser ouvida.

e, claro, me deixou com minhocas na cabeça.

vocês já viram alguém fazendo o seu dom? não digo do modo geral, mas fazendo FAZENDO mesmo, ali, ao vivo.

claro, é um filme, eu sei. mas é bonito de ver.

desde pequenininho, o menino ouvia música em tudo. qualquer barulho pra ele era um som, qualquer ruído da rua se transformava em uma melodia. e o dom sempre foi claro pra ele, só não sabia botar em prática.

no decorrer do filme, ele vai entrando em contato com os diversos estilos musicais, e, claro que de forma exagerada, incorporando cada um, montando o seu próprio estilo.

o que eu encarei como uma excelente metáfora de como tudo que a gente vive nos transforma aos poucos. nós somos a combinação das experiências que vivemos, mas, claro, com alguma índole de herança genética ou de berço.

aí, fiquei pensando como eu tenho deixado a vida passar por mim.

antigamente, eu sempre era cheio de histórias pra contar. das mais inusitadas formas, encontrava alguma peripécia do fim de semana ou algum detalhe do dia-a-dia pra comentar, escrever, florear.

e, de uns tempos pra cá, meu repertório começou a ficar curto. eu fiquei menos interessante.

já tinha percebido isso. eu me sinto mais criativo quando tou impaciente, me sinto mais poético quando tou melancólico, mas, fundamentalmente, tenho histórias mais interessantes pra contar quando dou mais a cara à tapa. tá me faltando exposição ao inusitado, o ‘tá bem, vamos sair’ no lugar do ‘hoje não dá que amanhã eu tenho plantão’.  menos ‘deixa pra semana que vem’, mais ’só se for agora’

mas, também, eu me conheço bem. e sei que, com o meu cansaço crônico, não dá certo.

não é nem pelo cansaço. eu sempre vivi cansado por aí, mas não deixava de dar minhas escapadas. mesmo que rendesse um pouco menos no dia seguinte, conseguia equilibrar meus níveis de responsabilidade e diversão, digamos.

e, nos últimos meses, admito que me rendi às responsabilidades. deixei muita diversão de lado por medo do que pudesse acontecer no dia seguinte. agora, como residente, sei que a minha carga de deveres é gigante, e não dá mais pra falhar. não tem como faltar um dia de aula pra dormir a mais, não dá pra deixar de estudar uma técnica cirúrgica. e isso me mata.

que que eu vou contar pros meus netos quando for mais velho, meu deus?

eu preciso de novas experiências. voltar a fazer coisas de acordar no dia seguinte e acordar rindo. ter o que responder quando me perguntarem ‘e aí, e as novidades?’

espontaneidade. é isso que eu tenho sentido muita falta.
daquelas de taquicardizar só de lembrar.

eu só vou ter 24 anos uma vez na vida, cara.
e sinto que preciso começar a retribuir a quantidade de histórias que  já me contaram ao longo desses anos.

agora, é a minha vez de contar algumas.

 

l: bob dylan - the times, they are a-changin’.

(porque só lembrei depois de postar: a cena dos créditos iniciais do watchmen.. essa sim, é de abrir O sorrisão.)

who watches the watchmen?

Março 7, 2009

eu. eu watched the watchmen.
(convenhamos, bem previsível que o post de hoje fosse ser sobre isso.)

saí do cinema com uma sensação de frustração, sabe?

gostei, gostei do filme. e, não se preocupem, não vai ter spoilers aqui. mas.. acho que faltou alguma coisa. é a impressão que me deu.

não sei se eu criei MUITA expectativa pra coisa, e decepcionou um pouco.

não sei se foi a sensação de vazio que me bateu ao sair do cinema, um ‘tá, o que eu tanto esperava chegou, e passou’.

pode ter sido a diarréia braba que me bateu meia hora antes do filme, que me fez pensar cinco vezes antes de sair de casa. e, ainda assim, resolvi ir. amanhã tou de plantão, só ia poder ver domingo.

pode ser que eu tenha me sabotado e matado boa parte da graça do filme, na minha ânsia de saber sobre o assunto, lendo partes dos resumos da história na wikipedia.

pode ser a ‘visão lateral’ do filme, que não é a mesma coisa, já que eu cheguei semi-atrasado no cinema e não consegui as cadeiras centrais de que eu tanto gosto.

pode ser que eu esperasse mais visualmente do filme. não entendam errado - o filme é lindo -, mas acho que fiquei comparando demais com o 300, e, apesar de satisfazer, não chega aos pés.

pode ser – e, isso sim, acho que deve ser a real razão – que eu não tenha saído do cinema com um puta sorrisão ‘batmaniano’ do rosto porque.. bom.. como dizer isso sem largar um spoiler?

a história, por si só, não é de sair com um sorrisão no rosto.

eu sabia já que a história original, do alan moore, é considerada uma das 100 melhores obras literárias de todos tempos – a única hq nessa lista. e, realmente, a ênfase não é nos super-heróis. isso que, antes de ver o filme, eu considerava o genial da coisa - é, de fato, uma história de super-heróis, mas que usa super-heróis como meros personagens, pra, enfim, se contar uma história.

tem BASTANTE filosofia incutida no filme. bem mais do que eu pensava. não que não goste, longe disso. só achei que seria mais um filme-pipoca.

e, agora, sei: longe disso.

é um filme pesado, bem pesado. satisfaz. as quase três horas de filme não pesam. mas, admito que quando olhei o relógio ali pela metade do filme, não ‘torci pra tar longe do final’ como eu faço quando tou babando por um filme. foi, basicamente, pra ter noção do horário mesmo.

os personagens são deliciosos. não é daqueles de ’cada personagem daria um filme por si só!’. não, não. é um filme de personagens interessantes, aparentemente profundos, mas bem rasinhos. bem humanos, cheios de defeitos, e eu acho que foi exatamente isso que o alan moore quis. sei que ele pegou emprestados de uma série de hq meia-boca, e talvez daí que seja o charme da coisa. num mundo onde tem tanto super-herói, eles se banalizam. são teoricamente clichês, e só são personagens.

quando vi o elenco, só reconheci dois pelo nome. vendo o filme, reconheci todo mundo, de filmes não tão famosos – ou estrelas não tão estrelas. dois de um filme indicado ao oscar de uns dois anos atrás que eu não lembro o nome, bem normalzinho; o substituto do gerry butler do ‘p.s. eu te amo’; a loirinha diabólica do ‘antes só do que mal casado’ – que, convenhamos, é bem bonita, mas ela tem mesmo que mostrar os peitos e fazer cenas de sexo explícito em TODOS os filmes dela?; e por aí vai. billy crudup azulado, carla gugino envelhecida.. basicamente, isso.

aliás, a crise americana deve tar feia mesmo. gastaram 100 milhões de dólares em efeitos especiais, e o dr. manhattan mexendo os lábios é pior do que muita animação de sessão da tarde. 

acho que tou enjoando de filmes de super-herói.

enfim. não saí do filme querendo ser ninguém. saí do filme querendo fumar um cigarro, sério, perimetral afora. pensando.

pensando que, agora, eu não tenho mais o que esperar vibrando pelos próximos meses.

 

l: the smashing pumpkins – the end is the beggining is the end (watchmen version).

(sabe que até essa música perdeu a graça agora?)