desde pequeno, eu sempre gostei de histórias.
dos 4 aos 13, a minha paixão eram as histórias em quadrinhos. as pilhas de gibi que eu tinha no quarto eram, de fato, respeitáveis; vício sempre suprido e estimulado pelos meus pais, que me compravam pacotes e pacotes de revistinhas por semana.
cresci um pouco, e comecei a precisar de espaço nas estantes do quarto. então, troquei de vício. e parti pro cinema.
em algum texto, já devo ter comentado que nas madrugadas de domingo pra segunda é que me sinto mais criativo. acabo dormindo o dia inteiro, cansado do fim de semana, e, lá pelas 22h, 23h, acordo totalmente sem sono. até tento voltar a dormir, mas não tem jeito. alguma coisa chama.
mas, rebelde preguiçoso que sou, sempre acabo me conformando com um filme.
e, coincidentemente, sempre são os que acabam me dando pano pra manga pra escrever ou contar uma história.
o de hoje, eu sempre tive bastante preconceito. assisti o tal ‘o som do coração’, que meu pai tanto insistia pra eu ver e me emprestou. já tinha ouvido boas recomendações, mas.. sabe? não parecia um filme apetitoso.
pois então. tomei coragem, e comecei a ver. e, pra minha surpresa, é bem bom. daqueles bonitos, perigosos pra um domingo à noite.
o filme trata sobre um menininho que tem um dom musical. um prodígio. e, entre musiquinhas e reviravoltas, conta uma história bacanosa, do tipo que vale a pena ser ouvida.
e, claro, me deixou com minhocas na cabeça.
vocês já viram alguém fazendo o seu dom? não digo do modo geral, mas fazendo FAZENDO mesmo, ali, ao vivo.
claro, é um filme, eu sei. mas é bonito de ver.
desde pequenininho, o menino ouvia música em tudo. qualquer barulho pra ele era um som, qualquer ruído da rua se transformava em uma melodia. e o dom sempre foi claro pra ele, só não sabia botar em prática.
no decorrer do filme, ele vai entrando em contato com os diversos estilos musicais, e, claro que de forma exagerada, incorporando cada um, montando o seu próprio estilo.
o que eu encarei como uma excelente metáfora de como tudo que a gente vive nos transforma aos poucos. nós somos a combinação das experiências que vivemos, mas, claro, com alguma índole de herança genética ou de berço.
aí, fiquei pensando como eu tenho deixado a vida passar por mim.
antigamente, eu sempre era cheio de histórias pra contar. das mais inusitadas formas, encontrava alguma peripécia do fim de semana ou algum detalhe do dia-a-dia pra comentar, escrever, florear.
e, de uns tempos pra cá, meu repertório começou a ficar curto. eu fiquei menos interessante.
já tinha percebido isso. eu me sinto mais criativo quando tou impaciente, me sinto mais poético quando tou melancólico, mas, fundamentalmente, tenho histórias mais interessantes pra contar quando dou mais a cara à tapa. tá me faltando exposição ao inusitado, o ‘tá bem, vamos sair’ no lugar do ‘hoje não dá que amanhã eu tenho plantão’. menos ‘deixa pra semana que vem’, mais ’só se for agora’
mas, também, eu me conheço bem. e sei que, com o meu cansaço crônico, não dá certo.
não é nem pelo cansaço. eu sempre vivi cansado por aí, mas não deixava de dar minhas escapadas. mesmo que rendesse um pouco menos no dia seguinte, conseguia equilibrar meus níveis de responsabilidade e diversão, digamos.
e, nos últimos meses, admito que me rendi às responsabilidades. deixei muita diversão de lado por medo do que pudesse acontecer no dia seguinte. agora, como residente, sei que a minha carga de deveres é gigante, e não dá mais pra falhar. não tem como faltar um dia de aula pra dormir a mais, não dá pra deixar de estudar uma técnica cirúrgica. e isso me mata.
que que eu vou contar pros meus netos quando for mais velho, meu deus?
eu preciso de novas experiências. voltar a fazer coisas de acordar no dia seguinte e acordar rindo. ter o que responder quando me perguntarem ‘e aí, e as novidades?’
espontaneidade. é isso que eu tenho sentido muita falta.
daquelas de taquicardizar só de lembrar.
eu só vou ter 24 anos uma vez na vida, cara.
e sinto que preciso começar a retribuir a quantidade de histórias que já me contaram ao longo desses anos.
agora, é a minha vez de contar algumas.
l: bob dylan - the times, they are a-changin’.
(porque só lembrei depois de postar: a cena dos créditos iniciais do watchmen.. essa sim, é de abrir O sorrisão.)
Março 9, 2009 às 2:04 pm
O que eu acho, de verdade, é que não precisa necessariamente deixar de lado as responsabilidades e ser “porra louca” pra ter histórias pra contar. As novas experiências acontecem em qualquer lugar, não só na noite.
Mas acho que sou só eu que acho isso. Ou eu e mais umas 10 pessoas no mundo.