close your eyes, holy roller novocaine.

janeiro 1, 2011

2010 não foi um ano de todo ruim, sabe?
teve coisa pesadíssima, triste, cansativa. teve doença, susto e correria. mas teve muita coisa legal acontecendo, também.
já, 2011.. sei lá, acho que vai ser bom. mas não dá pra garantir, né?

até pensei em pedir uma prorrogação até março, pra ver se valia a pena trocar de ano mesmo.
mas a globo já tinha comprado os direitos da contagem regressiva de copacabana, e acho que eu ia me meter em problemas legais.

..

daí, esse ano, eu decidi que ia tentar fazer uma resolução de ano novo.

nunca fui muito dessas coisas, e muito menos de levar à sério essas promessas que  a gente faz em comemorações alcoólicas. mas, vá lá, pode ser uma coisa interessante. e me pus a pensar.

minha primeira resolução de ano novo, ali pelas 8 da noite, foi ‘em 2011, eu vou lavar toda a louça suja que tá na pia desde outubro’. quando, tentando cozinhar uma semi-ceia, eu vi que o meu balcão da pia não tinha nem espaço pra acomodar a fôrma em que eu tava temperando a carne.

(na verdade, sendo otimista. óbvio que também não tinha garfos, pratos, copos, e, muito menos, fôrma limpa pra assar a carne.)

parei pra pensar na seriedade da resolução.
e concluí que eu não tou pronto pra assumir essa tarefa.
a regra das resoluções é não prometer o que não se pode cumprir, i guess.

baby steps, dude. baby steps.

..

onze e pouco da noite, jantando na sacada com um amigo, comecei a ouvir fogos de artifício e pessoas gritando e se cumprimentando.

- que horas são, cara?
- no meu relógio, 23:58..
- no meu, 23:59.
- e agora?
- acaba o teu cigarro, que a gente já se cumprimenta pra garantir.

uns 3 minutos depois, ele acabou o cigarro e a gente se cumprimentou, entusiasticamente. 2011 chegou quando a gente quis.

..

não seria legal se a gente pudesse fazer o nosso próprio tempo?

foi o que eu achei. e pensei ‘taí, uma boa resolução – em 2011, eu vou ser mais dono do meu tempo.’

pensando melhor, eu concluí que isso é besteira. não tem como controlar o tempo. nem o nosso. sempre se tem alguma coisa pra fazer, alguma tarefa pendente, e sempre se chega à conclusão que ou a gente faz o que deve, ou o que quer. dá pra chegar num meio termo, mas sempre fica aquela sensação de tarefa inacabada.

(como o meu tcc, que eu deveria tar fazendo as we speak)

outro dia, atarefado pra caramba, eu me peguei pensando, bem subitamente, que finalmente me caiu a ficha daquela frase bem famosa do john lennon.

‘life is what happens to you while u’re busy making other plans’.

parei pra pensar que eu tou com 26 anos. já vivi uma parcela bem considerável da minha vida. e, desses 26 anos, pouquíssimos foram planejados. eles foram, na verdade, acontecendo – seis anos eu tava na faculdade, outro na arquitetura, outros dois na residência.. e tudo que aconteceu no meio do caminho eu fui fazendo nas brechas disponíveis.

entende?

pode parecer óbvio pra quem tiver lendo isso, ou, bem menos profundo do que foi pra mim. mas ali, naquele momento, bem ali, eu me dei conta que a vida tá passando. eu fico esperando chegar o momento de ‘tá, fiz o que tinha que fazer, então AGORA pode começar, vida’. mas não é assim. a vida tá passando. os fins de semana que eu passo em casa meio chateado, pensando ‘tá, hoje eu não vou fazer nada, porque eu tou cansado da semana e tenho plantão amanhã’, já são a vida.

ou, pior, quando eu NÃO tiver essas preocupações, eu já vou tar bem mais velho, e não vai ser a mesma coisa.

ou seja, essa não é uma boa resolução de ano novo. controlar o tempo não é uma opção.

..

lá pelas tantas da madrugada, mesa cheia na sacada, 4 fumantes ao redor de um cinzeiro. e dois deles reclamando do cinzeiro cheio.
e eu, naquela rebeldia dos embriagados, gritei ‘pois a minha resolução de ano novo vai ser não esvaziar mais nenhum cinzeiro, só de pirraça!’

o que não conta, porque eu já não esvazio cinzeiros.
quer dizer.. uma vez a cada três, quatro semanas, quando os cigarros começam a cair pra fora e fazem uma sujeirada na mesa.

..

hoje de manhã, acordei com uma PUTA ressaca de cigarro.
fumei demais ontem, pra variar.

cabeça latejando, do lado esquerdo, seio frontal. clássica. empapado de suor, gemendo, MAL.

fui me arrastando até o banheiro, lavei a cara e vi o retrato deprimente que me olhava de volta pelo espelho. encarei aquele reflexo por uns 30 segundos. como se eu tivesse tentando entender a dor, resolver o problema com o olhar. era um misto de indignação, dor, e desespero.

(não, amigos. nem pensem nisso. a minha resolução não foi ‘em 2011, eu vou fumar menos’. nem cogitei.)

abri o armário de remédios, e quase não acreditei quando não encontrei nenhum dos componentes do coquetel.

eu, que tenho essas ressacas de cigarro frequentemente, já tenho separadinha uma mistura de remédios pra aliviar a coisa toda. toragesic, paracetamol, neosaldina, e naldecom. e, coincidentemente, todos tinham acabado.

eu quase beijei o frasco de novalgina xarope que eu encontrei no fundo do armário, quando o pânico já tava batendo.

tomei a dose habitual, liguei o ar condicionado, levantei a cabeceira da cama, fechei as cortinas e peguei a garrafa de dois litros de água pra deixar do lado da cama. e, milagrosamete, funcionou. mesmo. até sonhei, depois.

quer dizer.. até o celular começar a tocar irritantemente e eu concluir que não ia conseguir dormir por muito mais tempo.

..

tarde de sábado preguiçosa. vi pedaços da posse da dilma, vi pedaços de um filme ruim, comi pedaços de goiaba. tomei iogurte que nem uma criancinha, me babando todo. trabalhei um pouco no tcc, sob protesto. fiquei bancando o intermediário entre dois amigos por mensagem. concluí uma sete vezes que tinha que fazer alguma coisa pra passar aquela leseira, e desisti umas nove.

quando, enfim, resolvi ir no posto, devolver uns filmes e tomar um sorvete.

eis que, no carro, ouvindo música, paradinho no posto, tive a minha epifania.

‘em 2011, eu vou comer tablito que nem gente grande.’
chega de ir tirando a casquinha, o sorvete, e comer o chocolate separado. abocanha o negócio de uma vez.

and i did.

e sabe que é bom?

é, amigo.. 2011 promete.

 

l: kings of leon – holy roller novocaine.

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