e a tradição dos filmes de domingo à noite continua.
busca implacável, o de hoje. com o liam neeson. olhando, pela capa, não dava nada. ‘o novo bourne’, prometiam. grande coisa, nunca gostei do bourne mesmo.
e, pra variar, me surpreendi. bom, muito bom. filme de ação dos que dá gosto de ver. e, ao contrário do tal bourne, é um herói com personalidade. a gente simpatiza com o mocinho já de cara.
o filme é repleto de lições de moral. ouça seu pai. não fale com estranhos. não minta. não seja fácil. se valorize, preserve sua virgindade. ela lhe valoriza MUITO.
e, no papel de filhoca, uma atriz bem bonitinha que me lembrou de um rosto do passado. daquelas de bater uma mini-deprê.
eu, que já ando meio pra baixo com as coisas de ultimamente, tava sentindo um início de sentimentalismo bocó se instalando.
(mas, logo em semana de st. patrick’s? aí não dá!)
de repente, tocou o telefone. era o seu pedro, um motorista lá de pelotas que quebra uns galhos pra gente em chegadas e partidas de viagem. veio pegar minha mãe no aeroporto, e já aproveitou a vinda de carro pra me trazer umas sacolas que tavam lá por casa e eu não apareci mais pra pegar.
e, na hora certa, chegaram as oferendas!
pra quem não sabe, todo presente de viagem eu considero uma oferenda. como meus pais tão volta e meia pipocando em congressos e afins, a cota de oferendas anda bruta. e, como não vou pra casa já faz um tempinho, as oferendas do último congresso da minha mãe tavam acumuladas lá em casa, me esperando. maomé não foi à montanha, a montanha veio a maomé.
entre barbeadores elétricos e mimos da blue note, eis que apareceu o motivo do post.
o perfume.
dentro da necessaire que ’misteriosamente’ desapareceu de dentro da mala, graças ao bom amigo guincheiro, no acidente de dezembro, eu levava um perfume. O perfume.
que, ironicamente, eu, que gosto tanto, tava lembrando dele pelo nome errado.
semanas atrás, meu pai teve em jaguarão e eu tinha pedido pra ele o tal perfume, pelo nome que lembrava. chegou aqui, abri, experimentei, e era bom. mas não era ele. o frasco era diferente, o aroma era diferente. mas o nome tava certinho. encafifamos com a história, mas pensei ‘poxa, será que esqueci o cheiro do perfume?’
não, meu amigo.
a vida, cheia de coincidências, como sempre. andam acontecendo demais ultimamente, mas isso é assunto pra outro post. enfim. o tal perfume não chegou na terça, trazido pelo meu pai, em mãos; chegou hoje, trazido pelo seu pedro, em sacolas. sem nem eu ter que pedir por ele.
mamãe experimentou no free shop, e comprou, por acaso, porque achou gostoso.
GRANDE mamãe!
vi a caixinha, e já me animei todo. ’será?’, pensei. e era. tava lá ele, com sua cor de whisky. seu frasquinho elegante, sólido, espesso, imponente. borrifei.
o meu sorriso foi memorável, de tão espontâneo.
quem tá lendo, deve pensar ‘que besteira, por um perfume!’. mas não, meu amigo. não era um perfume. era uma lembrança.
olhando no espelho, comecei a vibrar sozinho. cheirava, olhava pro meu reflexo, rindo sozinho. olhos arregalados. cheirava de novo, borrifava de novo. sorria, ria, histericamente. que que tinha naquele perfume? não conseguia lembrar por que ele tava me deixando tão feliz. sabia que ele tava me lembrando de alguma coisa, que não conseguia situar. aquela memória que a gente tem pra perfumes e situações, que acho que já comentei, tava disparando aflitamente, mas nada de lembrar qual era a situação. só sei que me fazia vibrar por dentro. como se tudo fosse dar certo.
minutos mais tarde, deitado na cama, tava vendo tv, distraído, tentando lembrar que cheiro era aquele. não me saia da cabeça. cheirava o pulso a cada 10 segundos, abria um sorriso, e voltava a pensar. e nada.
and, then, it hit me.
não era uma lembrança necessariamente feliz. era uma época. e, convenhamos, nem tão feliz assim. era cheiro de plantão, bloco cirúrgico, torrada de queijo e nescau batido às 6 da manhã.
era o perfume que eu usei no mês de estágio do conceição.
e, aí sim, a minha cabeça deu um nó.
tá, o conceição foi legal. foi divertido, foi cansativo. mas não foi um tempo convencionalmente feliz, tão feliz que justificasse essa injeção de ânimo toda. foi um tempo..
exatamente.
foi um tempo diferente.
a associação que eu fiz com o tal perfume foi de um território desconhecido, cheio de possibilidades. era época pré-provas de residência, de embrulhar estômago. era um ambiente desconhecido, gente diferente, um hospital novinho pra se explorar. era a primeira surpresa de verdade que eu tive em seis anos de medicina, fora de ‘casa’. era um estágio não em outro hospital, mas em outro dia-a-dia. era sair da rotina de thiago, e assumir a identidade de ‘doutorando de fora’, um estágio da vida, não da faculdade.
e, nessas coincidências que eu tanto falo, na tv, passando diários de uma babá, cena final. scarlett johansson narrando. ‘é um dito comum na antropologia que, para conhecer a comunidade na qual se está inserido, realmente conhecer, é preciso sair fora dela.’
o meu perfume de possibilidades voltou.
justamente num tempo em que eu realmente preciso me conhecer melhor.
levantei da cama, todo bobo, com aquele sorrisinho ainda murchando. pensando nisso tudo. cheio de esperanças. voltei pras oferendas. faltava uma sacola.
não deu nem tempo de o sorriso murchar.
com tanta incerteza pela frente, a garantia do sucesso tava na sacola final.
afinal, nada pode dar errado quando se tem calças novas.
l: george michael – freedom ‘90.
(é, eu devia ter guardado a the times, they are a-changin’ pra esse post.)
(pensando bem, não; freedom ‘90 tem mais cara de final feliz, mesmo :))